João … ” Presente de Deus”

 

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Sempre idealizei o dia e os sentimentos que experimentaria no dia  em que descobrisse que o milagre da vida germinava em mim.

Os anos 90 foram entusiasticamente vividos por mim a cuidar dos meus bonecos como se de filhos se tratassem.  Reproduzia em série todo o zelo e cuidados que observava nos pais adultos. E porque acreditava verdadeiramente no argumento do Toys Story, providenciava sempre lugares confortáveis na arrumação para a bonecada. Enquanto me revezava, nas minhas funções de Professora austera, pintava as portas de casa com giz ( desculpa mãe), e fazia sapateado em permanente desiquilíbrio, com as botas que a minha mãe, tacitamente, me emprestava. Nem os testes, cuja resolução eu própria simulava, aleatoriamente entre respostas certas e erradas,  e que depois corrigia, abriam margem à mais pequena negligencia como mamã do faz-de-conta ( não havia cá licenças de maternidade nas minhas brincadeiras !!! ) . Já tudo estava escrito. Não precisei de crescer muito para saber o que queria ser. Com 4 anos de diferença ainda devo ter tentado tomar conta da minha irmã, mas de forma muito desajeitada presume-se.

Lembro-me que o meu sonho mais recorrente enquanto criança era receber um bebé verdadeiro como presente. Sonhava com frequência, que ao nascer do dia um som de choro de bebé perpassaria a porta de entrada de minha casa, e numa linda alcofa de palha me aguardaria um anjo pequenino a quem me caberia cuidar. Tudo desejos irrealistas, mas que já prometiam verdade nessa imutabilidade de intenções, que o  meu crescimento reafirmou e engradeceu.

O meu brinquedo de eleição era … adivinhem…o Baby Born. A melhor invenção dos brinquedos para uma precoce aspirante a mamã como eu era! Sempre gostei de cuidar e adormecer os meus primos bebés, e tomar conta de crianças era o meu brinde e o meu chill pill. Sim! Passaria horas no meio daquele caos tão puro cheio de autenticidade na dinâmica das interacções, nos gestos, nos aborrecimentos e nas gargalhadas. Estar com crianças sempre foi uma terapia para mim!  São a rosa-dos-ventos da alegria e o almanaque da genuinidade! Os adultos stressam-me!

No dia 18 de Setembro de 2017 descobri que deixaria de adiar mais esse sonho de infância, que  permaneceu e se elevou a um dos sonhos da minha vida. Soube ali, que o meu corpo concertava já as suas maiores energias e esforços para gerar o maior amor que conheceremos na vida. Emudeci ali. Chorei. De muita felicidade!  Esse predito amor paralisou-me ali os pensamentos e durante largos minutos entreguei-me a essa magia paralisante e sobrehumana. Fui só feliz. Esqueci-me das considerações adultas e dos receios que hoje, já noutra fase me invadem. Hoje jogo raquetes com as ansiedades e medos ( e as hormonas claro) que me entorpecem o bom senso e a serenidade e me fazem querer viajar até ao dia em que poderei abraçar a vida que acontece aqui, mesmo dentro de mim. Os dias passam e já só queremos sentir o teu cheiro, a tua pele de anjo, e olhar para ti. Esse prolongamento de nós é tão pequenino, mas já minimizou todas as janelas mal abertas na tópico de problematização da vida.

Sim!Talvez… talvez nunca mais durma descansada, sei que a minha serenidade passará a depender de um coração que existirá fora do meu corpo. Sim provavelmente, encontrar-me-ei centenas de vezes com esse monstro do desespero, entre noites mal dormidas, paredes riscadas, fraldas fedorentas, cólicas, dentes a nascer, birras e um medley de choros que será a banda sonora dos primeiros dias do resto da minha vida. Todo o bê-á- bá da maternidade, que estamos carecas de conhecer. Mas há um lado secreto, reservado para cada um de nós na singularidade de cada bebé.

Na minha balança, há lugar para sermos humanos. Há lugar aos gritos, e a provarmos todos esses sorvos de loucura, se soubermos entender o desespero, como parte de um processo, que é tão sério e desgastante quanto delicioso. E eu sei, que será o capítulo mais doce e feliz da minha existência. Nunca a felicidade me fez tão bem. Esse é o lado para que pende a minha balança. Não há dúvidas.

Sei, que o teu abraço e o teu cheiro serão o meu lugar feliz.  Amar conhecerá novos limites no dia em que te vir pela primeira vez.

Meu pequeno, GRANDE AMOR.  És o nosso maior desejo.

Estamos todos à tua espera.

 

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Capicua do Amor

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Se nos pedissem uma ilustração do amor, desenharíamos uma casa pequenina enfeitada de flores nas janelas, e uma rede a baloiçar embalada pela brisa de um fim de tarde estival. Uma matilha alegre a passear no jardim. O seu interior seria aquecido pela ternura e arejado pelas liberdades dos afectos. Haveria um candeeiro a media luz sobre um álbum de fotos amachucadas pelas revisitação das mãos saudosas e apaixonadas, aos momentos construídos e ali eternizados. A ilustração do amor merece sempre a sinestesia de um cheirinho morno a bolo, ou àquele fabuloso repasto, a atravessar as paredes e a espalhar -se pelos corredores da casa…enquanto nos faz crescer água na boca, e nos beija a face e segreda: ” Este é o teu lugar feliz!”.

Vasculhamos a definição e a medida do amor diariamente. Observamo-lo,nos gestos, nas atenções, nos desentendimentos, na intolerância, no respeito, na ira, no perdão, nas pequenezas rotineiras que desafiam a valentia e a tenacidade dos amantes… Nem sempre, porque absortos nesta rusga de urgências diárias, percebemos que é especialmente na diferença, que veremos o amor sublimar e engrandecer.

Um espasmo de lucidez, e deixamos de fazer braço de ferro. É como se ele – o amor – saísse de nós,  voasse para a terra dos alfaiates da felicidade, para aumentar as medidas da nossa capacidade de amar e compreender. Uma viagem que faz dele um amor mais gorducho, que de tanto crescer deixa de ser mensurável e se nos tomba das mãos de tanto que se fez. É um amor elástico, mas que só conhece um sentido – o que o eleva e o expande, em tamanho e densidade.

A viagem acaba apenas de começar. Põe o teu melhor sorriso, e prepara um lugar confortável para a Fada da Felicidade, ela garante que veio para ficar, e está cheia de vontade de trabalhar.

Mais importantes do que as virtudes que nascem do amor, são aquelas que ele vem acordar em nós. Há uma mestria própria no amor, ao fertilizar e colorir o melhor do outro, ao amortecer as quedas e ao aceitar os surtos de egoísmo e cansaço tão humanos, que por ventura surjam na caminhada mais feliz das nossas vidas. Confiemos nele. Ele será a nossa fortaleza. Com lamechice, drama e emoção. Tudo o que define o amor, e tudo o que faz de si a força frágil mais feroz do mundo.

Que seja um amor para a vida toda. Que seja uma vida a transbordar amor, e que no futuro, as bengalas nos deixem sobrar espaço para continuarmos a passear de mãos dadas, já que saltar à macaca sem deslocar a bacia começará a tornar-se árduo.

 

Não nos falte a voz para soletrar o A-m-o-r.

❤️

 

Pirilampos da felicidade

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Debruçada sobre mim, de vestido de linho enrodilhado e de um branco luminoso, surpreende-me a felicidade. Mão direita apoiada no meu ombro, dá-me a provar um pedaço de bolo que trazia, ainda quentinho, protegido por um cesto de vime,  que transportava sobre a cabeça. Comovi-me com a simplicidade dos seus modos. Saboreei a fatia. Conheci-lhe o melhor sabor. Era de um doce baunilha, e tinha o frescor do gengibre.  No aroma já se lhe sentia uma acidez proporcional à satisfação prometida. Um agridoce dos sonhos maiores. Dos desejos que nos exigem inteiros, por sermos artistas e escultores.  Por sermos os únicos autores dessa construção sublime , que desafia todas as medidas da inspiração já experimentadas.

São desígnios que não cabem numa folha de papel. O seu valor é inconvertível, superam todos os projectos, ideais e todas as maquetes sonhadas.  Todas. Todas as expectativas. Sabemos que estamos perante algo de realmente grandioso na vida, quando a  nossa fraqueza e a nossa maior força convergem. Enrolam -se numa esgrima elegante, mas nem sempre equilibrada. A valentia do amor é o superlativo da coragem no mundo. Desde essa visita da felicidade,  que ficamos  juntas a contemplar todos os rosas e azuis do céu, que escoltam o por do sol. Com ela, nesse dia, vi balões de todas as cores, e o fogo de artifício mais impressionante dos meus últimos anos de existência.

Ela não me escondeu as suas intencionais ausências. Garantiu-me necessárias.Pediu-me apenas para não me esquecer dela, porque sempre voltará. Deixou-me borrifadelas do seu perfume e sorrisos de reserva debaixo de uma almofada, para que não me esqueça da sensação plena, nos dias em que não vier, ou naqueles em que não se puder demorar.

A felicidade gosta de mim. ❤️

 

 

 

Meu querido mês de Setembro.

Dia 1 de Setembro do ano de 2017, Lisboa, Século XXI.

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Lá fora, o sol despertou envergonhado, arrastando lembranças da luz farrusca dos prometidos dias de  Outono. A maioria dos mortais, relutante e adornada em estranheza, passeia-se pelas ruas de Lisboa, nos intervalos de expediente,  invadida por um magicar de planos entusiasmantes para o próximo fim de semana. O balão de oxigénio dos mais insastisfeitos e inconformados, pelo regresso ao trabalho e aos dias duros. O rigor e a frequência da consulta dos ponteiros do relógio dispara para uma média de 4 a 6 vezes por hora. O consumo de café expressa-se em milímetros de mercúrio. A tensão sistólica é promovida a fiscal de produtividade, e a moleza ficou estendida e esquecida naquela toalha de praia, aquecida pelas carícias da luz solar e os açoites das brisas estivais.

“-Setembro, o mês bastardo do ano… esse cruel e impiedoso, que nos arranca do ócio para nos atirar, de novo, à tortura dos rituais laborais. ”

Não, não é verdade, para mim! Desvio-me desse sentimento colectivo de um ódio sem tréguas, por Setembro. A Segunda-Feira dos meses, o desamor cíclico, a golpear o dolce far niente.  Não, não é verdade! Meu querido (e favorito) mês de Setembro. Chega perfumado em confiança, a desfilar, nas suas roupagens de entusiasmo e paixão pela vida.  É um caleidoscopio de intenções e decisões lavadas, que peneira a poalha áspera dos dias, da qual nos queremos libertar, para abraçar os reversos preditos,  e todos os projectos em riste. É o mês das promessas, que esvoaçam sob os nossos ombros, alinhados num ponto de partida de desafios,  embebidos em vividez de vontades e esmeros.

O meu querido mês de Setembro, é o músculo que vem polir a morfologia dos desejos mais urgentes, e os convalida em verdades quando decide lançar-nos ao “novo ano”, num rio de oportunidades a borbulhar, embalados por uma velocidade de cruzeiro.

Em Setembro regressa sempre a criança que fui, maravilhada pelo cheiro a novo dos livros – um dos meus cheiros preferidos – e pela amálgama dos meus marcadores de colorir,  a aguardar as construções dispersivas da minha arte pueril.

Setembro cheira melhor. Setembro faz-me feliz.  ❤️

Olá mês bonito. Sê bem-vindo 🍀

 

 

 

 

 

 

Holograma da vida

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Estou como o tempo.

Descubro todos os dias meias verdades sobre o mundo. Sobre as pessoas, sobre mim mesma, sobre o amor e sobre o ódio. Sobre a inveja e o orgulho, sobre a ira (…). A compleição humana, para o concurso de pecados capitais, convida-nos a respostas.  A outra metade das meias verdades.  A que escolhemos ser e guardar. Amor com amor se paga, reza o povo. Assim será? Sabemo-nos autores da retribuição que nos cura ou contamina a sensibilidade para amarmos ou azedarmos o panorama do mundo, com as sobras de temperança e expectativa, qual caixa de Pandora de Zeus. Rompemo-nos em fragmentos de voluntas a escolher rotas diferentes, feitos de abraços, desfeitos em erro,  virtudes, desalentos de fracassos e agonias de tragédias, numa conquista, não raras vezes, desigual de identidade e modéstia, que nos fazem convolar ideias sobre nós e sobre os outros, colocando em perspectiva o valor da vida e a importância que emprestamos aos acontecimentos.

A frugalidade da confiança nos outros é mister no “saber viver”. Ter o rictus treinado e a indiferença debaixo do braço. Ouvimos e comentamos com frequência:  “-As pessoas são más!; -As pessoas são invejosas!”. As pessoas? Aquela colectividade a que também pertencemos, e ao lado da qual coexistimos? E nós, os queixosos, não seremos também capazes de instintos mesquinhos com salpicos de inveja e cólera? Não seremos afinal, locutor e destinatário desses reparos cáusticos? Eu sou uma manta de retalhos, imperfeita e cheia de nódoas, que será continuamente costurada pelas interjeições da vida e os elos que se quebram e se renovam, todos os dias. Sou uma galeria de defeitos e uma pequena montra de bons predicados, que se misturam e revezam todos os dias, nos microclimas das minhas estações intempestivas.

De coração limpo, mas lúcido, afastemo-nos de tudo o que não nos alumia o caminho, de tudo o que assombra a meta da nossa fé, e deseja media luz ao clarão de felicidade singela que nos acredito guardado. O escapulario das nossas venturas. Mudemos nós. Comecemos connosco. Contrições, consciência e progresso, o busílis do nosso contributo.

O eixo longitudinal do amor próprio e da cobiça continua a fazer tangentes ao bom senso, mas se escolhermos  o brilho e a simplicidade, o holograma da vida saberá cuidar do tic tac do relógio, nos nossos maiores proveitos.

Acreditar no equilíbrio, no respeito e no amor. Sempre no amor.

“O amor é eterno – a sua manifestação pode modificar-se, mas nunca a sua essência”

Van Gogh

 

Querida ansiedade, o problema não és tu (sou eu). Vemo-nos depois!

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A minha mais leal dama de companhia dá pelo nome de Maria Ansiedade. Podia ser  Maria das Neves, da Graça, da Luz ou do Mar, mas calhou-me esta Maria.  Os arautos da ciência optimista sublinharão o detalhe de não me ter calhado a Maria das Dores. Touché, meus queridos!

Vou apresentar-vos a minha companheira. A M. Ansiedade é faladora, egocêntrica e mandona. Dias felizes são os em que a convenço a retirar-se para uma sesta. Normalmente passeia-se ao meu lado em silêncio, mas nunca negligencia os beliscões. Um banho Maria de sistema nervoso.

A Maria Ansiedade é muito popular, desdobra-se em mil para chegar a todos, mas há ainda pessoas com quem se recusa a demorar nas intimidades. Que “sorte” ter simpatizado tanto comigo! Ela não gosta do ócio, do silêncio nem da serenidade. É prima da Maria Adrenalina e sobrinha do Sr. Medo.  Descontroladamente previdente, perde-se em análises e advertências vazias, de possibilidades, que nem o Instituto Nacional de Estatística estuda. Se fosse uma dança seria uma mistura de samba, sapateado e rumba ( para os dias em que acorda cansada). Campeã Olímpica, na verdade. Não falha um treino, não perde oportunidades.

Enérgica e atenta, aspira presidir em liderança à Assembleia dos meus Projectos e Planos, onde, parte do quórum constituivo – e sempre solícita – me exige que examine cirurgicamente as razões e as consequências de todas as escolhas e decisões iminentes.  A sua malandrice fá-la lançar-me aos desafios, e desfilar ao meu lado, no trajecto, enquanto me cutuca, nos braços ou nas costas,  num alerta, com febre de zelo e de expectativas.

Acorda cedo nos dias livres, e quer companhia. Costuma arrancar-me da cama sem piedade nem respeito pelo meu descanso, para projectar e desenhar com ela o universo de possibilidades felizes e desanimadoras que circundam a minha vida, e a dos que me são queridos. Intrusiva e insolente! A M. Ansiedade também é conservadora e desconfiada, e recusa-se a assinar protocolos com essa moda dos “Mindfullness“.  Não acredita em neo correntes, e o seu “modus operandis” é muito by the book. Como manda a tradição.

Quando está zangada consegue gritar tão alto que até me provoca dores de cabeça! Deixa-me irritada e exausta.

Bem sei, que em conjunto com o entusiasmo e o medo, forma o eclético e vencedor tripé das conquistas e da superação, mas estou a precisar de umas folgas.

Desculpa. Vou de férias e não quero ouvir falar de ti. Não há lugar no avião, não cabes na minha mala, e não és bem vinda. Os últimos meses foram intensos.  És como a pimenta, e o teu consumo deve ser racionado. Há certas cirscuntâncias, (como comidas, para a pimenta), em que poderemos abusar um pouco de ti, porque também és razão, mas no agora és dispensável, e vais viajar até Marte, para perceber o tamanho da tua importância e da nossa galáxia. Talvez mitigue o teu narcisismo, a experiência. Temos encontro marcado para Setembro, mas deverás libertar-te desses exageros e dessas investidas de preocupação e drama! Já tens idade para ter juízo!

Agora só tenho férias marcadas com a tranquilidade o descanso e a leveza. Roubo-te os direitos ao samba, a todos os rumbas e danças do mundo. Sou eu que decido quando durmo e quando acordo, e o sons da música, do silêncio, do vento e do amor serão as minhas únicas bandas sonoras!

Há espaço para ti na minha vida, mas não queiras o papel principal. Fica-te mal esse vedetismo.  Ou me dás ouvidos ou renuncio à nossa sã aliança! Agora cava daqui para fora, malandra!

 

Elegia da saudade – Avó

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Seguro com as duas mãos um livro, a direcção da minha cabeça está regulada para as linhas que o meu olhar alcança, mas não entende. O meu pensamento saiu, sorrateiramente, para cumprimentar outras ausências.

Lembro-me, com a precisão milimétrica da expressão do teu rosto quando soltávamos em conjunto aquelas gargalhadas de uma felicidade tão pojante e guerreira, temperadas por ti. Aquela felicidade preciosa de quem nunca se escusou a aceitar com exaustão, parcimónia ou amargura, os contornos menos meigos, que a vida te desenhou tantas vezes.  Sou, como sabes, uma tonta que adora soltar risadas por tudo- acho que herdei isso de ti- mas o vazio do uníssono da nossa gargalhada jamais será satisfeito por nenhum outro. O produto da minha felicidade nesses nossos rituais de risos, é bem espaçoso, na minha pirâmide de Maslow, e tem reflexo no que sou hoje. Tudo é único e irrepetível na vida (sobretudo em ti). E há tanta dor e beleza nesse imperativo.

Tenho saudades, caramba.  De tudo. Quando pensamos, em juízo de prognose, tentar calibrar o peso de determinados vazios, desconhecemos a real medida da partida e da distância física a que finitude nos condena.

Os teus olhos davam guarida a um misto de ternura e tristeza, pela permanente inquietude e vigilância de uma matriarca que precisava de saber que todos estavam bem, para serenizar o coração. Mas não havia nada, nunca, suficientemente grande, inalterável ou menos bom na vida, que nos justificasse desalentos ou  que te roubasse as palavras de  ânimo e de força que tão carinhosa e religiosamente nos dirigias. Sempre lá. A ouvir-nos. A erguer-nos. A centrar-nos.

As nossas vitórias eram as tuas medalhas, e aquele sopro lépido e meigo a congratular-te de orgulho. O nosso sofrimento, era o teu sofrimento,   mas afoitamente, recebido por uma destreza materna, que canalizavas na reparação da nossa bússola anímica estragada, para nos afastar dos fantasmas e nos devolver sempre a convicção de que, e como tu sempre dizias, “tudo se resolve”.

– Filha, cheira uma rosa apaga uma vela! – A metáfora mais bonita dum mantra que hoje me vem segredando ao ouvido, nos dias mais difíceis.  Uma mensagem de serenidade que certamente ensinarei aos meus filhos.  Ainda me lembro do timbre e da entoação, mas começa a ser cada vez mais difícil.

Recordo os teus poemas em acróstico, que escrevias para cada um de nós com um entusiasmo e brandura únicos. Recordo como eras vaidosa e bonita.  Ai como eras gulosa! Recordo os nossos serões, a devorar chocolates no sofá ( o último foi um coelho da Páscoa). O cheiro a cigarros e a simplicidade. Estas recordações aconchegam, mas doem. Pelo menos até nos reecontrarmos todos nesse lugar, de onde, no teu pelouro de Super Mãe e Super Avó nos continuas a cuidar a todos.

Sempre que penso em ti, é a tua gargalhada feliz e os teus olhos de mel que me visitam. Fazes-me falta. Fazes-nos falta. Muito mais que muito.

Tenho saudades. Tenho mesmo saudades Avó. Tuas. Vossas. Do Avô e da Bivó.  Mais de um ano volvido e continua tudo estranho. Para onde vamos? Sei que continuam a viver em nós.

Não me esqueço de vocês. Não se esqueçam de nós.

 

 

Deixo-te um acróstico meu, muito fraquinho ao pé dos teus. Guarda a mensagem. ❤

 

Inspiraste temperança na nossas vidas

Segredaste confiança ao desalento dos nossos corações

Amaste-nos com a tua força e o teu colo terno

Brindaste-nos sempre com a tua candura

Estaremos para sempre gratos

Lembra-te que te amamos profundamente.

 

Até um dia, querida e amada Avó.

 

As coordenadas do sonho – Um direito potestativo.

 

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Que grande dor de cabeça! Fixar coordenadas para uma alma a galope…

-“Tu queres fazer tudo!”.

-“Não, isso não é boa ideia.Descansa os neurônios!”

-Pés no chão, pés no chão! Exclama o meu neocortex depois de processar todo esse tecido taciturno, filho amado do meu idealismo, que lhe ofereço sempre com o mesmo entusiasmo. Gosto de lhe dar que fazer. Ele tem sido estoico, à justa medida do problema.

Mas haverá apenas uma morada para os sonhos? Digam-me qual o perímetro para desfilarmos essa liberdade contemplativa, por favor. Estaremos circunscritos a um “quintalzinho” para passearmos a lírica das nossas intenções? Ou livres, numa pradaria que convida a passos largos de mágica? Trago sempre o transferidor no bolso, para ampliar o ângulo do sonho aqui. “Ab abusu as usum, non valet consequentia”. A esperança e o sonho são as candeias da humanidade, a alma mater do progresso, da luz, do entusiasmo … da vida! Não me condenem a latitudes no trampolim dos meus anseios caprichosos e felizes… Abram a porta a uma panaceia frutificada pelo equilíbrio da ponderação e do impulso. A árvore dos sonhos cria sinergias que transpõem os muros mais altos da angústia e do desalento. São advento de mil projéteis de força que nos vestem de determinação e confiança, qual fada madrinha da Cinderela, no dia do baile. Do lema: Be kind and have courage.

O sonho amacia-nos a olhar e afina a trajectória do amor. Do amor próprio. Do amor pelos outros. O sonho é a oportunidade que damos à vida de recomeçar a contar as histórias dadas à luz por uma perfeição canhota. Um reciclar da tristeza e da mácula .A epítome deste fantasiar chama-se eudaimonia (Aristóteles), a minha filosofia, a circunstância de ser habitado por sentimentos prósperos e pelo bom gênio.

Se isto vos aborrece?Podem continuar a sonhar. E eu também. Nunca serei diferente.

Esta é a minha forma de excentricidade.

Sonho-vos felizes.

Carolina Costa

 

 

 

Sopros da lucidez moderna

 

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Acordo. São 9h:30m de Sábado. Estendo o braço direito, com o fito de alcançar o telemóvel. Reparo nas horas, julgava a manhã com uma maior vantagem da ida madrugada. Sou definitivamente uma morning person. Passo os olhos pelo sucessivos acontecimentos cibernéticos, com o desinteresse próprio que uns olhos ensonados e pachorrentos podem oferecer. A açucena de um despertar espontâneo soçobrou ali, aos pés desse adágio matutino,  prisoneira de uma coreografia de hábitos vãos e tontos, que paulatinamente se foram alojando nas rotinas deste século.

Levanto-me da cama, após desperdiçar, pelo menos, 15 minutos do meu dia, entre os vulgares “likes ” e os fúteis “scrolls”. Reproduções abundantes de pessoas felizes, revoltadas e cheias de humor interventivo e consciente. Confundem-me sempre as anedotas disfarçadas de notícias, sou apanhada na teia da multiplicação de eventos de todos os tipos, a aliciar o nosso espírito curioso, e a declarar guerra ao volume da nossa carteira.

Já na mesa de pequeno-almoço, calculo os mais favoráveis ângulos para fotografar o meu “mata bicho”. Com a mão esquerda alimento-me do meu iogurte e da miscelânea nutritiva que prazerosamente preparei, com a outra mão folheio as páginas do meu livro, que jurei ler imperturbavelmente,desta vez. Raios! Já está. Só uma pequenina partilha, no insta stories daquele trecho tocante que acabei de ler. Retomo a leitura atenta, mas volvida que é meia hora, o alarme invisível recomenda que espreitemos os feeds das redes sociais mais usadas. Tomou-me de assalto esta febre. Logo eu que sempre fui tão dada a observar. A observar as pessoas. Que pesadelo é este?Viram-no chegar? É melhor chamar a polícia. Este monstro está armado e é perigoso.

Hoje mesmo, dei por mim a perguntar-me, qual foi a última vez que me entreguei de corpo e alma a uma experiência. Qual terá sido a ultima vez que a minha retina construiu e registou sozinha as estórias,os formatos e as cores que vestem a vida e a complexidade e beleza do mundo. Hoje o telemóvel e as câmeras fotográficas são os novos cicerones, que nos reconduzem as prioridades e os interesses para um substracto insípido de significados e sentidos.

O uso aditivo das redes sociais é a silenciosa alavanca para uma coexistência que hoje namora o fleuma e é o pejo do amor e da compreensão entre as pessoas. A escuta activa e os olhos que vêem são as virtudes mais urgentes,  e hodiernamente parcas, e cuja ausência nos ameaça a existência plena e sã.

Aposto que já se esqueceram de que o luar é um encómio à vida e aos apaixonados.  De que o pôr do sol nos reserva sempre um abraço morno e uma brisa meiga que nos balança a atenção para esse limbo mágico entre os fim bonitos, e o vestíbulo dos recomeços faustos. Contemplemos a natureza, que continuará a florir majestosa e a reparar nos rostos e nas vozes dos desconhecidos que são terreno fértil, a aguçar-nos a imaginação e fantasia. Um embrião duma epifania dada à luz por frases indistintas, roubadas aos transeuntes, sentada numa esplanada do Saldanha, ontem, sexta feira:

“-O Contrato foi hoje assinado…”-Adianta uma aparente empresária, apressada.

“-Jantamos hoje?”- Indaga um quarentão.

“-Quando fazes sombra a alguém…”- Esclarece um jovem a alguém do outro lado da linha.

A mística encantadora de tantas vidas a acontecer ao mesmo tempo– como exclamou, recentemente, alguém que me é muitíssimo especial- é um beijo requila que nos agita e redirecciona a lupa da consciência.

Não sou, de todo, nem quero, a mais recente vilã do desenvolvimento, e reconheço com propriedade e benefício, as indiscutíveis maravilhas dos avanços da Internet e das plataformas e ferramentas que lhe sucedem como extensão de progresso…mas os nossos corações, a efemeridade da vida,  e o proveito desta viagem, merecem que nos olhemos nos olhos, que escutemos cada detalhe e transformação anímica das pessoas e da energia da atmosfera que nos acolhe e que habitamos.

Tive em tempos uma colega, que quase sempre se recusava a ser fotografada. Dizia que as fotografias roubavam a alma. Sempre me ri, escarnecendo a lógica bacoca daquela afirmação.

Hoje… percebo exactamente o que queria dizer.

Há dias em que despertamos para uma catarse de hábitos surdos e cegos de vida.

Nortear pelo equilíbrio é a batuta da sagacidade. Cultivem a atenção e sejam mais felizes… Eramos mais felizes antes da inauguração desta patologia que enferma as redes sociais? Já se perguntaram?

Fotografem muito, se isso vos der prazer, gravem memórias. Mas fotografem sobretudo com a alma. Observem. Ela irá connosco, nesse depois, e na nossa finitude, já com a capa vestida, da estrela que nos estiver destinada, poderemos revisitar a nossa história folheando o álbum que reúne todos os pedaços que humanizaram e amaram a nossa existência.

Carolina Costa

 

 

 

 

 

 

Anjos

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Somos aquele quadro torto na parede, que vai rodando ao sabor da força e da subtileza das pessoas que vêm esbarrando nessa obra imperfeita e desajeitada que somos. Somos o irremediável resultado dessas sacudidelas da vida. Mas a vida ajudará a distinguir os encontrões que nos surpreendem a serenidade e o marasmo. Os fortuitos, que nos assustam e nos entortam levemente as medidas; os implacáveis, rompantes e descontrolados, que nos balançam agressivamente e quase nos prometem a queda – mas permanecemos; os inofensivos mas preocupados, que não serão mais que um sopro a limpar a poeira que nos cobria a tela, e nos desbotava a vivacidade das cores da alma. Somos nós, a passar do Guernica a um Kandinsky.

Depois, existem aqueles encontrões meiguinhos e atentos. Os que nos endireitam. Que nos alinham, e que ao ver para além de si mesmos,  nos centram a arte e o brilho que insistimos em projectar, tantas vezes de forma atravessada, e pálida. São generosos e amigos. São trampolins de bondade. Marés de consciência e empatia, que o oceano nos empresta , para que o nosso olhar não se esqueça nunca, que mundo  é um lugar bonito, e que pode estar doente, mas a ferida ainda não tomou conta de si.

Fazem-te saber o que queres ser mais, e lembram-te o que queres ser menos. Inspiram-te. Acompanham-te. Acreditam em ti.

Dás por ti, e deixaste de ser um quadro. Já nenhum prego te prende ou determina o lugar. A historia pintada ganhou forma, abandonou a tela e agora acontece aqui no palco da vida, onde os sonhos e a cores também existem, porque a sorte te quis tanto bem,  que ao teu lado fez caminharem anjos.

Nascemos vazios. A riqueza está no caminho, nos encontrões, nos olhares ternos, nas mãos amigas,  nos sorrisos companheiros, e nas palavras que nos beijam….

 

Obrigada a todos os anjos da minha vida.

Sobretudo aos que me vêem, me amam e me guardam, da varanda do céu ♡